segunda-feira, 28 de junho de 2010

medicação

há duas semanas atrás um aluno meu da escola particular deixou de frequentar a escola.
fui me informar sobre o que teria acontecido com o menino.
ele tentou suicídio.
eu já sabia que ele tem síndrome do pânico, ir à escola diariamente já é um grande desafio, mas nunca passaria pela minha cabeça que um menino de dez anos tentaria suicídio...
na adolescência é normal pensar nisso, mas fazer é outra história.
ele, além de ser criança ainda, pensou e fez. agora, finalmente, os pais se convenceram de que ele precisa de medicação.
perguntei de uma outra menina, que é muito introspectiva e apresenta algumas dificuldades pra se relacionar com os colegas.
chega sempre atrasada também.
tá.
os pais estão separados, a mãe consumidora de crack, o pai alcoólatra, brigam pela guarda dela.
a mãe se apaixonou por um traficante e a menina agora mora com ela e o novo padrasto no "local de trabalho" dele.
foi um baque pra mim.
depois de um tempo trabalhando só na periferia, eu tendia a achar que esse tipo de problema ficava lá.
na periferia esses casos são maioria, na classe média não. mas estão lá.
aprendo muito trabalhando com um novo público.
tenho colegas excelentes que me auxiliam quando preciso.
e tenho turmas que já são motivadas.
eu mal entro na sala e todos estão eufóricos pela aula que está por vir.
com isso ainda não acostumei, fico um pouco desconfiada...
nas comunidades em situação de risco social o desgaste é muito maior.
têm-se que motivar, estimular, pressionar, dialogar, brigar e, ufa, daí dar aula.
no primeiro caso o professor vai tranquilo pra casa. leve, rindo sozinho.
no segundo caso, vai cansado. às vezes exausto. outras vezes com enxaqueca, só pensando no momento daquele bom banho. e que ele leve pelo ralo todas as pressões do dia.
eu adoro o primeiro, de verdade.
mas o segundo...
me desafia.
me fascina.
me exige.
é.
talvez eu também esteja precisando de medicação.

sábado, 19 de junho de 2010

Copa II

Quinta-feira, dia de ensaio geral com três turmas que irão participar de uma apresentação elaborada pelas professoras de dança, capoeira, teatro e música.
Tem público pra assistir e os meninos que estão comigo se mostram muito nervosos. Alguns querem desistir, outros me olham sem saber bem como reagir, outros só tremem. E, claro, sempre tem os que adoram.
Passado o susto inicial, todos vencem seus medos e vão em frente. Eu, claro, morro de orgulho.
No dia seguinte, dentro da programação especial da Copa, tem campeonato de embaixadinha.
Com platéia!

os meninos, depois de participarem, me dizem que a experiência tinha sido como no dia anterior, e que os dois momentos se assemelhavam a pular numa piscina com água bem gelada: deixava qualquer um tremendo!

Copa I

e as crianças me mostrando seus bloquinhos com os placares dos jogos.
todas começam a dizer que torcem para a África do Sul vencer a Copa.
Quando eu pergunto porque, respondem que eles são tão legais..
E deveriam ter a chance de erguer uma taça, algo que eles nunca fizeram...

terça-feira, 8 de junho de 2010

reformas

tenho ouvido muitas coisas sobre a proposta de gratificação para bons professores ultimamente.
mas de tudo que a envolve, me chama atenção o quanto os professores ficam indignados com a possibilidade de serem avaliados.
tenho minhas dúvidas quanto a proposta, mas definitivamente gostaria muito que o aluno tivesse direito de avaliar seu professor. se faz isso na escola particular, porque não fazer na escola pública?
daí uma professora escreveu ao jornal que isso só poderia acontecer depois que as escolas tivessem toda a infra necessária para oferecer qualidade. como assim? vez por outra se noticia escolas em condições precárias, que nem escolas são, mas tem lá um professor querendo fazer seu trabalho.
numa escola que trabalhei me impressionava a rejeição que uma professora de matemática sofria.
sério.
faziam horrores com ela.
toda semana a direção era chamada pra conversar com alguma turma sobre o relacionamento com ela.
isso acontecia em todas as turmas que ela dava aula.
eu só não entendo como essa professora conseguia continuar dando aula.
nas poucas vezes em que conversamos, era claro que, na visão dela, o problema estava com os alunos, que não a respeitavam e tal. todos os mais de duzentos alunos.
uma vez, timidamente, cheguei a sugerir que fizesse novas propostas, mas ela respondeu que eles não iriam aceitar, que não tinham capacidade pra isso.
tá.
daí dentre tantos alunos, eu tinha uma em particular que declarou guerra pessoal a ela e passava todas as aulas de braços cruzados se recusando a copiar ou fazer qualquer coisa que a professora pedisse.
chamei de canto, tentei explicar que quem saía perdendo era a aluna, que isso faria com que ela repetisse de série e ficasse mais um ano com a professora. ela não se importou. disse que talvez fosse a única maneira da professora perceber o trabalho horrível que estava fazendo.
não teve jeito. e ela rodou.
então, essa professora tem que ganhar os mesmos benefícios de outros que continuam correndo atrás de novas idéias e tecnologias pra tentar manter o interesse dos alunos em aprender?
e no meio de tanta coisa a discutir, uma reportagem sobre os países que são modelo em educação.
aparece em primeiríssimo lugar a Finlândia, que investe mais de 15% do orçamento do país em educação.
na mesma semana, anúncio de corte de 1,3 bilhão na educação do nosso país...