Eu tenho aquele aluno que todos os professores sabem o nome de tantas vezes em que é chamado a atenção. Eu também aprendi o nome dele rápido, mas porque ele se envolve com todas as atividades que proponho. E ele sai diversas vezes das outras aulas pra espiar o que estou fazendo com as turmas. Hoje conversei muito com meus alunos, ouvi muitas reclamações sobre regras da escola que não concordam.
Eis que, no último período da manhã, o aluno mencionado abre a porta da sala onde estou, me chama e pergunta curioso porque a minha aula está tão diferente e hoje estão todos sentadinhos em silêncio.
Por um lado, me lembra do quanto trabalhar a autonomia é barulhento e cansativo, mas vai render bons frutos pra vida deles.
Por outro, fico contente ao perceber o quanto ele presta atenção à maneira como conduzo as atividades.
Confirma que está atento, observando e, o mais importante, pensando a respeito do que proponho. E pode, sim, refletir em outros aspectos.
Esses dias me chamou no corredor pra contar que havia copiado a matéria de outra aula pela primeira vez no ano. Talvez não faça diferença no contexto geral, já que estamos em agosto, mas pra ele é um grande passo. Como professora, a gente sabe que não deve depositar expectativas, mas como ser humano, estou ansiosa pra ver que outros passos ele vai se arriscar a dar.
Adoro ele.
Adoro o olhar de cumplicidade e confiança que me oferece.
Adoro ser surpreendida positivamente.
E daí que à tarde, em outra escola, tem uma aluna que há anos não se comunica com ninguém que não seja sua mãe. Não interage, passa os recreios sozinha olhando pro nada e nem responde a chamada. Só levanta o dedinho como se não quisesse existir.
Os grupos estavam divididos combinando suas cenas e uma aluna me chama discretamente pra mostrar que ela argumentava com o grupo decidindo o que iria fazer em cena.
Só isso já era uma enorme surpresa.
A menina estava falando pela primeira vez EM ANOS com seus colegas. E ganhou um personagem! Mal me contenho de tanta ansiedade pela próxima aula. Mal coube em mim de tanta surpresa e contentamento.
Aos dois milagres do dia, meu muito obrigada por hoje.
é o que mais vale na minha profissão.
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
terça-feira, 14 de junho de 2011
quinta-feira, 19 de maio de 2011
aham!
hoje fui conhecer duas novas escolas em que vou trabalhar. a primeria é num bairro que eu não fazia ideia de como era. perto do presídio central, nunca nem tinha ouvido falar nada de lá. pois o lugar é lindo! no pé de um morro, a vista é inacreditável. o segundo, passo pelo guaíba pra chegar. (suspiro) eu já morei perto do gasômetro e sempre gostei do visual que se tem lá, mas vou ter que fazer jus... o guaíba visto da zona sul é muito, mas muito mais lindo! talvez porque me lembre o Laranjal e sua lagoa dos Patos, dos sonhos dos barcos, onde morei e fui tão feliz. e fui feliz ao chegar na escola também. aliás, nas duas. dá pra sentir que se começa com o pé direito quando se é bem recebida. pessoal amável mas bem diferente num lugar e outro. e me jogo de novo na descoberta do outro, dos outros. (que eu adoro!). quer saber? eu gosto mesmo é de conhecer pessoas. e aprender com elas. prato cheio hoje. e nos próximos dias. depois vai requintando, aprofundando... delicinha. aham!
segunda-feira, 16 de maio de 2011
voltei!
eu voltei! voltei a trabalhar numa escola na perifa. eu já tinha passado por lá em 2009 e agora estou de volta. a primeira impressão foi impactante. depois de dois anos, continua tudo igual. mudou direção, mudaram professores, acrescentaram atividades, mas a gurizada ainda tava lá berrando, se ofendendo, se agredindo. vou trabalhar com dois grupos diferentes e felizmente adorei os alunos. agora recomeça o trabalho. recomeça a cobrança das regras de convívio, recomeçam as expectativas, recomeça o aprendizado. deles e meu. saí de lá felizinha, conversei com quem pude, abracei velhos conhecidos com quem compartilho ideologias, interagi o que deu com a comunidade. ô gente que tem história pra contar. ô eu, que adoro ouvir.
sábado, 1 de janeiro de 2011
faz um ano que escrevi esse texto. e ainda diz muito de mim...
Eu fiz escolhas difíceis. Tão difíceis que na maioria das vezes em que paro pra pensar, não sei porque as fiz.
Meu trabalho é foda. é foda e me cansa.
Eu vejo tanta dor, tanta merda, que me sinto sedada emocionalmente. Se não, eu piro.
Eu não preciso ter sido abusada, escorraçada, mal amada, indesejada, humilhada. Eu vejo a conseqüência desse tipo de tratamento todo dia ser jogada na minha cara.
Eu respeito imensamente todas as pessoas que fizeram as mesmas escolhas, mas não entendo.
Não entendo a elas, não entendo a mim.
A probabilidade de algo dar certo é tão pequena, mas tão pequena que quase desanima. Não se opera na prevenção do problema, se opera na minimização das conseqüências.
Eu tento levar ludicidade a quem é espancado, abusado, mal tratado, ignorado, desrespeitado. Antes disso, tenho que lembrar regras de civilidade que tantos não têm. Sem exageros, em algumas crianças é possível ver o olhar quase animalesco de quem não vive como ser humano nem é tratado como um.
Eu vejo todos os dias a realidade que a mídia tenta esconder das classes mais elevadas. Eu lido com a dor de ver uma criança que eu gosto muito sofrer pelo pai que foi embora. Com a dor de saber que um adolescente eu que apostei todas as fichas foi levado para a FASE por três assassinatos. Com a dor de ouvir o relato mais sincero e ingênuo da filha que entende porque tem que ficar no abrigo, já que a mãe não consegue se livrar do uso da pedra. Com a dor de ver uma criança passando mal porque a última refeição que fez foi há 24hs atrás. Com o menino de cabelo estático pela falta de água. Com os abraços mal cheirosos pela falta de higiene.
Eu vejo a falta de informação num mundo tão bem informado como o de hoje.
Eu vejo a ausência de amor. Eu vejo a ausência de amor...
E tudo que vejo fica em mim. Passa a fazer parte de mim. E tento, com toda a força que tenho, e que sei que é monstruosa, esconder daqueles que eu amo. Eu tenho uma sombra no meu peito. Que me dói e encobre o que tenho de melhor. Eu vejo um mundo tão injusto, tão feio e tão sujo e tão indigno e desumano que me corrói inteira.
E isso tem afetado o meu dia-a-dia de uma tal maneira que não sei mais como controlar. Reservo meus assuntos mais íntimos para aqueles amigos realmente próximos. Agora, toda vez que um amigo se aproxima, eu fico apavorada, por que acho que desaprendi a partilhar.
Me sinto tão mesquinha ao reclamar de qualquer coisa que seja.. eu tenho problemas? Que problemas, meu Deus?
Mas ainda gosto de ouvir. É um dos prazeres que mantenho.
Ando um pouco cansada de tanta realidade, de tanta dureza, de perceber que tudo isso passou a ser natural.
Me desapeguei de tanta coisa, e me apeguei a outras pra me manter na minha vida.
Me apego ao passado, aos bons momentos que vivi, que me diverti e dei muita risada. Às vezes em que pude contar com bons amigos que me fazem sorrir ainda hoje quando lembro deles. Das vezes em que minha maior preocupação era onde eu iria fazer festa quando a noite chegasse, ou quando o melhor assunto que se tinha era um filme maravilhoso que havia passado numa sessão do “raros”, ou de um livro – oba! Fui a primeira a ler – que passou de mão em mão até que todos pudessem dar suas opiniões mais intelectualizadas quanto o conhecimento permitia. De quando tudo levava a um bom motivo pra tomar um vinho. Se bem que até hoje tudo sempre leve a um bom motivo pra tomar um vinho.. De quando eu tinha que ver todos os espetáculos, todas as exposições, filmes, eventos culturais importantes. De quando a experiência estética era um prazer absoluto.
Eu me apego ao futuro. Consigo me enxergar daqui a dez, vinte, trinta, quarenta anos. Me vejo bem. Tranqüila. Com muito mais sabedoria de vida do que de teorias. Vejo alguns amigos que tenho certeza que ainda vão estar na minha vida. Outros que vão surgir. Minha família bem. Com meu marido. Meus irmãos e meus pais. Eu não consigo acreditar na falta d’água. Na verdade eu tenho sérias dificuldades em pensar nisso... (mas não desperdiço. Vai saber, né? Se bem que tem coisa melhor que um banho demorado?) e espero que as próximas gerações não sejam tão preocupadas com a aparência e convivam de maneira respeitosa com as diferenças. E todo esse blá, blá, blá que parece papinho pra comover em final de ano é só pra me lembrar do meu presente. Que hoje ta difícil de administrar. Por que meu trabalho todo diz respeito a esse futuro. Eu tento hoje fazer com que o adulto de amanhã tenha mais opções na vida. Mas que porra de pretensão é essa? O que é que eu sei sobre isso?
E quando eu penso nisso, meu olhar se nubla e deixa escorrer pela face todo o peso que eu carrego dessa realidade absurda. Que eu carrego na minha alma, e que passei a carregar no meu corpo. É isso que me faz chorar sem motivo aparente quando estou sozinha. Que me faz não atender o telefone se não estou disposta.
Que me faz depositar toda a minha energia num amor. Um amor regado e cuidado. Que faz bem. Que agüenta todas as alterações de humor que uma “mulherzinha” pode ter. Que não entende muito tudo o que passa em mim, mas mesmo assim não desiste.
E se eu não fosse tão relapsa, eu estendia esse amor pra todo mundo. E praqueles que eu já amo, eu deixaria mais claro. Porque às vezes, meu peito aperta tanto que tenho vontade de gritar o quanto as pessoas me são importantes. Mas me sinto tão sem energia que tudo que consigo fazer é ficar quietinha pra tentar encontrar o equilíbrio e não assustar ninguém.
Como uma típica representante do elemento terra, sempre consigo colocar a razão à frente de tudo. Observando, justificando. Mas essa água toda que vez ou outra vem à tona acaba comigo. E me deixa de uma tal maneira sentimentalóide que nem eu me agüento. E com muita vontade de, num suspiro longo e sentido, jogar pro universo toda essa responsabilidade que insiste em pairar sobre os meus ombros. E poder voltar a compartilhar mais momentos de prazer, desanuviando o sol da minha alma e, pra ficar perfeito, sentindo a brisa gostosa de um dia de primavera...
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