sábado, 1 de janeiro de 2011

faz um ano que escrevi esse texto. e ainda diz muito de mim...

Eu fiz escolhas difíceis. Tão difíceis que na maioria das vezes em que paro pra pensar, não sei porque as fiz.

Meu trabalho é foda. é foda e me cansa.

Eu vejo tanta dor, tanta merda, que me sinto sedada emocionalmente. Se não, eu piro.

Eu não preciso ter sido abusada, escorraçada, mal amada, indesejada, humilhada. Eu vejo a conseqüência desse tipo de tratamento todo dia ser jogada na minha cara.

Eu respeito imensamente todas as pessoas que fizeram as mesmas escolhas, mas não entendo.

Não entendo a elas, não entendo a mim.

A probabilidade de algo dar certo é tão pequena, mas tão pequena que quase desanima. Não se opera na prevenção do problema, se opera na minimização das conseqüências.

Eu tento levar ludicidade a quem é espancado, abusado, mal tratado, ignorado, desrespeitado. Antes disso, tenho que lembrar regras de civilidade que tantos não têm. Sem exageros, em algumas crianças é possível ver o olhar quase animalesco de quem não vive como ser humano nem é tratado como um.

Eu vejo todos os dias a realidade que a mídia tenta esconder das classes mais elevadas. Eu lido com a dor de ver uma criança que eu gosto muito sofrer pelo pai que foi embora. Com a dor de saber que um adolescente eu que apostei todas as fichas foi levado para a FASE por três assassinatos. Com a dor de ouvir o relato mais sincero e ingênuo da filha que entende porque tem que ficar no abrigo, já que a mãe não consegue se livrar do uso da pedra. Com a dor de ver uma criança passando mal porque a última refeição que fez foi há 24hs atrás. Com o menino de cabelo estático pela falta de água. Com os abraços mal cheirosos pela falta de higiene.

Eu vejo a falta de informação num mundo tão bem informado como o de hoje.

Eu vejo a ausência de amor. Eu vejo a ausência de amor...

E tudo que vejo fica em mim. Passa a fazer parte de mim. E tento, com toda a força que tenho, e que sei que é monstruosa, esconder daqueles que eu amo. Eu tenho uma sombra no meu peito. Que me dói e encobre o que tenho de melhor. Eu vejo um mundo tão injusto, tão feio e tão sujo e tão indigno e desumano que me corrói inteira.

E isso tem afetado o meu dia-a-dia de uma tal maneira que não sei mais como controlar. Reservo meus assuntos mais íntimos para aqueles amigos realmente próximos. Agora, toda vez que um amigo se aproxima, eu fico apavorada, por que acho que desaprendi a partilhar.

Me sinto tão mesquinha ao reclamar de qualquer coisa que seja.. eu tenho problemas? Que problemas, meu Deus?

Mas ainda gosto de ouvir. É um dos prazeres que mantenho.

Ando um pouco cansada de tanta realidade, de tanta dureza, de perceber que tudo isso passou a ser natural.

Me desapeguei de tanta coisa, e me apeguei a outras pra me manter na minha vida.

Me apego ao passado, aos bons momentos que vivi, que me diverti e dei muita risada. Às vezes em que pude contar com bons amigos que me fazem sorrir ainda hoje quando lembro deles. Das vezes em que minha maior preocupação era onde eu iria fazer festa quando a noite chegasse, ou quando o melhor assunto que se tinha era um filme maravilhoso que havia passado numa sessão do “raros”, ou de um livro – oba! Fui a primeira a ler – que passou de mão em mão até que todos pudessem dar suas opiniões mais intelectualizadas quanto o conhecimento permitia. De quando tudo levava a um bom motivo pra tomar um vinho. Se bem que até hoje tudo sempre leve a um bom motivo pra tomar um vinho.. De quando eu tinha que ver todos os espetáculos, todas as exposições, filmes, eventos culturais importantes. De quando a experiência estética era um prazer absoluto.

Eu me apego ao futuro. Consigo me enxergar daqui a dez, vinte, trinta, quarenta anos. Me vejo bem. Tranqüila. Com muito mais sabedoria de vida do que de teorias. Vejo alguns amigos que tenho certeza que ainda vão estar na minha vida. Outros que vão surgir. Minha família bem. Com meu marido. Meus irmãos e meus pais. Eu não consigo acreditar na falta d’água. Na verdade eu tenho sérias dificuldades em pensar nisso... (mas não desperdiço. Vai saber, né? Se bem que tem coisa melhor que um banho demorado?) e espero que as próximas gerações não sejam tão preocupadas com a aparência e convivam de maneira respeitosa com as diferenças. E todo esse blá, blá, blá que parece papinho pra comover em final de ano é só pra me lembrar do meu presente. Que hoje ta difícil de administrar. Por que meu trabalho todo diz respeito a esse futuro. Eu tento hoje fazer com que o adulto de amanhã tenha mais opções na vida. Mas que porra de pretensão é essa? O que é que eu sei sobre isso?

E quando eu penso nisso, meu olhar se nubla e deixa escorrer pela face todo o peso que eu carrego dessa realidade absurda. Que eu carrego na minha alma, e que passei a carregar no meu corpo. É isso que me faz chorar sem motivo aparente quando estou sozinha. Que me faz não atender o telefone se não estou disposta.

Que me faz depositar toda a minha energia num amor. Um amor regado e cuidado. Que faz bem. Que agüenta todas as alterações de humor que uma “mulherzinha” pode ter. Que não entende muito tudo o que passa em mim, mas mesmo assim não desiste.

E se eu não fosse tão relapsa, eu estendia esse amor pra todo mundo. E praqueles que eu já amo, eu deixaria mais claro. Porque às vezes, meu peito aperta tanto que tenho vontade de gritar o quanto as pessoas me são importantes. Mas me sinto tão sem energia que tudo que consigo fazer é ficar quietinha pra tentar encontrar o equilíbrio e não assustar ninguém.

Como uma típica representante do elemento terra, sempre consigo colocar a razão à frente de tudo. Observando, justificando. Mas essa água toda que vez ou outra vem à tona acaba comigo. E me deixa de uma tal maneira sentimentalóide que nem eu me agüento. E com muita vontade de, num suspiro longo e sentido, jogar pro universo toda essa responsabilidade que insiste em pairar sobre os meus ombros. E poder voltar a compartilhar mais momentos de prazer, desanuviando o sol da minha alma e, pra ficar perfeito, sentindo a brisa gostosa de um dia de primavera...

Um comentário:

  1. Tá muito lindo isoo! Belíssima reflexão,que só é possivel, sentida na pele,face to face,dia a dia;passando despercebida pela ''pequena burguesice''do cotidiano que nada vê preocupado com vidas de famosos, que nem sempre são interessantes para serem levados em consideração.Mas é via de regra,o que os olhos não veem, o coração não sente
    Parabens Lola!

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