há duas semanas atrás um aluno meu da escola particular deixou de frequentar a escola.
fui me informar sobre o que teria acontecido com o menino.
ele tentou suicídio.
eu já sabia que ele tem síndrome do pânico, ir à escola diariamente já é um grande desafio, mas nunca passaria pela minha cabeça que um menino de dez anos tentaria suicídio...
na adolescência é normal pensar nisso, mas fazer é outra história.
ele, além de ser criança ainda, pensou e fez. agora, finalmente, os pais se convenceram de que ele precisa de medicação.
perguntei de uma outra menina, que é muito introspectiva e apresenta algumas dificuldades pra se relacionar com os colegas.
chega sempre atrasada também.
tá.
os pais estão separados, a mãe consumidora de crack, o pai alcoólatra, brigam pela guarda dela.
a mãe se apaixonou por um traficante e a menina agora mora com ela e o novo padrasto no "local de trabalho" dele.
foi um baque pra mim.
depois de um tempo trabalhando só na periferia, eu tendia a achar que esse tipo de problema ficava lá.
na periferia esses casos são maioria, na classe média não. mas estão lá.
aprendo muito trabalhando com um novo público.
tenho colegas excelentes que me auxiliam quando preciso.
e tenho turmas que já são motivadas.
eu mal entro na sala e todos estão eufóricos pela aula que está por vir.
com isso ainda não acostumei, fico um pouco desconfiada...
nas comunidades em situação de risco social o desgaste é muito maior.
têm-se que motivar, estimular, pressionar, dialogar, brigar e, ufa, daí dar aula.
no primeiro caso o professor vai tranquilo pra casa. leve, rindo sozinho.
no segundo caso, vai cansado. às vezes exausto. outras vezes com enxaqueca, só pensando no momento daquele bom banho. e que ele leve pelo ralo todas as pressões do dia.
eu adoro o primeiro, de verdade.
mas o segundo...
me desafia.
me fascina.
me exige.
é.
talvez eu também esteja precisando de medicação.
